A socialite Ana Cristina
Martha Medeiros
Afora a brutalidade do ocorrido, uma coisa chamou minha atenção nas notícias sobre o assassinato de Ana Cristina Johannpeter, no Rio. Em todas elas, a descrição da vítima resumia-se a uma palavra pela qual nutro uma genuína implicância. Ana Cristina foi resumida por todos os órgãos de imprensa como uma socialite. O que vem a ser tal coisa? É uma profissão, uma atividade, um título honoris causa? Não é nada. Descreve mulheres que badalam em festas e saem em colunas sociais. Sinceramente, ter destaque na sociedade me parece pouco para definir uma pessoa. Pouco, e ainda por cima cafona.
Ana Cristina, que nunca conheci e sobre quem nada sei, talvez tenha feito uma faculdade na juventude, talvez tenha trabalhado um dia, ou nunca trabalhou porque não precisou, o que não é pecado: conta-se nos dedos quem nunca sonhou em nascer com a vida ganha. Ana Cristina, mesmo sem trabalhar, era mãe de três filhas, era praticante de ioga, caminhava todas as manhãs, é possível que fosse acionista de uma empresa, deveria torcer para algum time. Como defini-la para aqueles que, como a maioria de nós, não tinham ideia da sua existência?
Sempre que se escreve sobre alguém, cita-se sua atividade antes do nome próprio: o deputado Fulano, a arquiteta Sicrana, o camelô Beltrano, a cozinheira, o artilheiro, a cabeleireira, o empreiteiro - todos são identificados pelo que fazem. Os que nada fazem, ainda assim são agraciados com um título que, se não é honroso, tampouco é difamatório: o desempregado João da Silva, a desempregada Maria das Dores. E tem aquela expressão da qual hoje poucas mulheres se orgulham, mas já se orgulharam muito: a dona de casa. Deputado, desempregado, dona de casa: tudo serve para visualizar o universo da pessoa citada na notícia. O gremista Valter, a estudante Helena, o guardador de carros Silvio, a atriz-modelo-manequim Andressa. Estamos apresentados.
Socialite é uma tentativa de definição, também, em princípio não pejorativa, já que não há nada de errado em ser uma bonitona que é convidada para todas as festas e que possui um saldo bancário de matar de inveja. Mas que não seja este o sonho de consumo nem de ricas nem de pobres, nem de belas nem de feias. Socialite passa a ideia de uma inútil, o que ninguém, por mais que tente, é.
Ana Cristina, se era uma mulher inteligente como dizem, certamente preferiria ser lembrada não como uma dondoca, mas simplesmente como a carioca Ana Cristina, ou a gaúcha Ana Cristina - não sei onde ela nasceu, mas citar nossa procedência é algo que nos situa muito bem. Na falta de uma profissão, seguimos sendo uma pessoa, e quiçá uma ótima pessoa, com atributos particulares que poucos conhecem. E tampouco haveria demérito em ser chamada de a dona de casa Ana Cristina. Faria até bem para a classe, já que dona de casa, hoje, passou a ser vista como uma pobre coitada com o avental sujo de ovo e a raiz do cabelo precisando de uma tintura. Até onde sei, somos todas donas de casa e sabemos bem o trabalho que dá.
Tudo, menos ser etiquetada como socialite. Não pode haver resumo mais reles para uma vida.
Domingo, 3 de dezembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.